audience-with-3d-glassesÉ comum na vida moderna, e não surpreende, o afã do desenvolvimento tecnológico, cada vez mais valorizado e idolatrado como panacéia universal para os males da época e do futuro igualmente. Muito já foi escrito e considerado a respeito, a partir das mais diversas posições, contra ou a favor; não é o caso de resenhar a discussão ou aprofundar no mar de possibilidades e fundamentos (ponderados ou, ao invés, distorcidos) que tocam ao assunto; bastam algumas considerações essenciais para enquadrar – formatar, numa analogia mais próxima – e comentar o fenômeno da relativamente recente conquista do “3D”, especificamente para o palco dos entretenimentos.

Chama a atenção como os filmes produzidos com esta tecnologia ganham espaço e preferência do público, ávido de emoções, e estas, cada vez mais sensíveis. Ou, inversamente, como investem as produtoras neste tipo de imagens, a instigar as imaginações com promessas cada vez mais vivas de “realidades virtuais” – supostamente uma alternativa “viável” para o existir -, alimentando finoriamente o jogo de juntar a fome com a vontade de comer. Há um apetite a ser saciado. Não considerando por ora o quanto de gula entra aí, sem dúvida existe a busca prandial legítima; mas de que alimento?

Negar a emotividade ao ser humano é negar sua humanidade; mas sob o mote da atual, propagada e atiçada “busca de emoções” a todo custo, parece que o discernimento de quais delas – e por quais motivos – devem ser alcançadas perdeu os necessários parâmetros de filtragem. Então, bebe-se a cheias de qualquer rótulo, uma vez que simplesmente está impresso, inodoro e acessível. Bem acessível. Escusa citar os onipresentes recursos computacionais; mas não escusa indagar do frenesi da busca. A ressaca das emoções não sacia as apetências de paz da alma, como a espiritualidade de todos os tempos e mesmo a psicologia moderna (ao menos, a honesta) não cansam de provar. Mas os comensais se acotovelam nas filas de toda venda, dispostos à inevitável indigestão, que produz apenas nova salivação pelas próximas migalhas. Nem Pavlov anteviu tamanha fabricação de carências.

E carências, e emoções, sensíveis. É preciso agarrar. É uma comoção epidérmica dos neurônios, e igualmente das suas projeções abstratas. Numa palavra: é a materialização da sensibilidade; que caminha para a carnificina da alma. Rubber Soul, proporiam os Beatles: provavelmente, sem desconfiar dos desdobramentos possíveis da expressão.

Neste contexto, ou antes vazio, vem muito bem preencher com mais sólidas emoções a tecnologia 3D. Claro está que seria ridículo, absurdo e de suma burrice condenar um lícito e precioso recurso técnico, de extraordinária qualidade e utilidade; não é o caso. Como tudo mais que o homem desenvolve, o que questiona é o seu uso, a intenção. Incomoda ver – a este propósito, cada vez mais próximo e palpável – um direcionamento que – também a propósito -, se aparentemente estimula a sensibilidade, pode levar a um efeito de cada vez maior embrutecimento da mesma. Tornando mais claro o ponto, pode-se em primeiro lugar perguntar que tipo de filme – pois é especificamente da arte cinematográfica de que trata a questão – mais se beneficia o 3D. Simples: do que é tátil. Como filmes “de ação” – cenas de violência, por exemplo, ou de objetos “quase” reais que “quase” alcançam o público… como estilhaços de explosões… gerando “sensação”. Estimulando a “sensibilidade”. Daí que o pano de fundo, a ideia, ao menos neste tipo de filme, é de violência – que o público assimila, com cada vez menor questionamento – e a “sensação”, de brutalidade. Não há dúvida de que este tipo de enredo, e imagens, tem enorme e amplo apelo para a tecnologia do 3D. Por que não?, dirá o espectador; é “real”! É vida! É emoção! E assim embriaga-se – dessensibiliza–se – o Homem, faminto.

Mais uma vez: claro está que o mesmo recurso, usado com melhor perspectiva artística, pode trazer inegável profundidade a uma cena, e insuspeitos matizes até então impossíveis de explorar, que, espera-se, os verdadeiros talentos saibam descobrir. E urge que o façam. Mas ainda assim: esta tecnologia tornaria mais pungente, poético ou artístico um clássico como “O Garoto”, de Charles Chaplin? O que mais faria falta, a genialidade de Chaplin ou o recurso técnico? Francamente: em que melhoraria este recurso técnico específico a transbordante sensibilidade, o toque na alma, de “O Garoto”?

Ou ainda, qual benefício traria – e imagina-se imediatamente a grandiosidade da corrida de bigas – o 3D para “Bem Hur”? Sim, emoção à flor da pele… talvez mesmo alguém gostasse de sentir-se nas pernas de Messala. E com isto – talvez – ficaria em segundo plano a maior grandeza de toda esta magistral sequencia cênica, o perdão incondicional, generoso, divino, de Ben Hur ao antigo amigo e cruel inimigo. No retrato mesmo da perspectiva amorosa de Cristo, que incondicionalmente nos perdoa, pecadores antigos e cruéis amigos, talvez ainda se estivesse com o coração acelerado, vibrante, comovido, pela perspectiva tão próxima das patas dos cavalos. Talvez.

A função da Arte, sob qualquer das suas formas, é elevar a Deus. Ela o faz cativando a alma, tocando-a sim, com delicadeza de mãe e mãos de esposa. Busca tocá-la, só tocá-la: não apertá-la entre dedos grossos – não digitalizá-la.

O tipo de filme que mais imediatamente se presta (na mentalidade atual) para a tecnologia 3D é, então, o que apela ao mais imediatamente sensível. Ao material. À matéria. É um desvio sutil, no caminho da Arte que deve elevar ao espiritual. Um desvio que facilmente se defende, atacando as críticas pela inquestionável qualidade do recurso técnico: não se ouse criticar o progresso!

A qualidade artística de qualquer obra, porém, deveria ser valorizada, entre outros aspectos, pela sua capacidade de estimular a alma, a sensibilidade, a transcendência, a partir do grau da sua exigência intrínseca para a abstração. Isto é, quanto mais exigente para a abstração for a sua manifestação concreta, mais valor artístico ela possui; justamente porque não se detém no estímulo mais imediato da superficialidade dos sentidos, mas a partir deles é capaz de chegar profundamente ao âmago do espírito, onde se encontra o trampolim para Deus e o nexo de Verdade que obrigatoriamente a Arte deve descortinar, sob pena de não ser mais do que modismo pseudo-intelectual e não Arte. São Tomás de Aquino ensina que nada há na inteligência, e dela para a alma, que não passe primeiro pelos sentidos; mas evidentemente as potências espirituais são aquelas pelas quais o ser humano chega a Deus, sendo os sentidos naturais apenas um meio para que estas potências possam ter o conhecimento necessário para se desenvolver e refinar ((cf. TOMÁS DE AQUINO, S. STh. I, q. 78-88; in: http://permanencia.org.br/drupal/node/267)). Este processo também se dá na percepção da Arte.

[pullquote]Apesar do desconhecimento de qualquer estudo com a perspectiva sugerida a seguir – o que mais do que provavelmente se deve meramente a lamentável ignorância, não mais -, fica registrada aqui a reflexão de que, nesta perspectiva de graus de abstração, as várias formas de manifestação artística também têm uma gradação, de acordo com a sua característica particular e intrínseca. Considere-se, assim, que uma escultura, por exemplo, além da sua visualização, é passível de ser tocada – de fato, um recurso maravilhoso para que pessoas com deficiência visual possam ter acesso a esta forma de Arte – e portanto em si mesma exige uma abstração (ao menos inicial) menos exigente do que uma pintura, bidimensional, e que não pode ser percebida (artisticamente) pelo tato. Da mesma forma, a música, cuja percepção auditiva não deixa de ser parcialmente “tátil” (já que exige o contato de ondas sonoras, físicas, com a membrana timpânica), é menos exigente neste sentido do que a percepção artística de uma poesia. (Talvez também por este motivo, historicamente, a música seja uma forma de arte muito mais difundida, conhecida e praticada mundialmente do que a literatura).[/pullquote]

Isto não desqualifica, evidentemente, nenhuma das formas de expressão artística: apenas, dá uma pista sobre o modo como, no que se refere ao 3D, há uma “facilitação”, uma diminuição da exigência de abstração, para o acesso da percepção ao filme. Uma vez que um maior estímulo da película é direcionado para uma percepção mais próxima do “tátil”, e que os temas que mais facilmente se expressam com esta técnica são antes de valor moral mais duvidoso do que de elevação do espírito, compreende-se porque o recurso de projeção tridimensional não é, ao menos necessariamente, uma abordagem para a melhoria da percepção artística das obras cinematográficas. Ao contrário, muito facilmente pode ser um modo de anestesia da sensibilidade artística.

(De fato, é difícil pensar nas coisas do espírito quando se está apenas atritando a carne. E não é por acaso que a Igreja recomenda o jejum como degrau espiritual).

Voltando ao problema da fome: além da elementar função de distração, a Arte – o cinema – procura responder a uma ânsia do ser humano, ânsia voltada para o Infinito, e que pode e deve ser alimentada através da sensibilidade para o Belo e para a Verdade – que estão em Deus. É inegável esta fome do homem moderno: mas por que se alimenta ele tão mal, e continua passando necessidade? Por que buscar nas meras sensações a substância de que de fato necessita? Por que iludir-se ao ponto tridimensional, para tentar preencher o Infinito que está além desta dimensão?

Em toda época, há os que apalpam a alma do tempo, para diagnosticar-lhe a miséria. Nisto a Igreja é mestra de todos os tempos. Presentemente (ou hodiernamente, apenas para utilizar um termo mais antigo para o que é atual: como se as aspirações de hoje, na alma humana, fossem diferentes, desde Adão e Eva…), ela radiografa, por cima de emaciações de avant-garde, a mesma fome ancestral de Deus. O olho clínico desta santa médica identifica, porém, o modo característico como o século está em fuga (em oposição à saudável e eventualmente desvalorizada premissa da “fuga do século” monástica). O materialismo assumiu um compromisso de espectador. O homem é um espectador da vida; é deixá-la passar, como um longo filme, ao qual se assiste com todos os confortos; realidade é somente lutar por este conforto, a partir do qual, então sim!, pode-se ter emoções – virtuais – até os créditos finais. As tomadas no cinema são a tela onde é pacientemente pincelada a tomada da sensibilidade. E é com estas pipocas, no escuro, que se distrai a fome.

O antigo adágio romano Panis et circus permanece portanto em vigor, mas com uma feição mais unitiva entre ambos, já que o materialismo atual vive morrendo de apetite para mais de uma área das sensações: “o seu deus é o ventre” (Fl 3,19), mas é o típico ventre com divisões, onde se rumina plácida e deleitosamente a sensibilidade da alma, junto com os sucos gástricos e a futura matéria do bolo fecal.

Não se sabe o número de quantos buscam esta mesa, quando na verdade é outro o Banquete. Quantos não o farão por ignorância; sem saber que é no Pão Eucarístico, no Sangue de Cristo e na água do Batismo que se nutrirão como quem “nunca mais terá sede” (Jo 4,14).

[pullquote]A arte, o cinema, ou os recursos 3D não podem jamais ser satanizados, mas o demônio, sim, procura, de muitas formas desvirtuar – quanto mais sutilmente melhor – os caminhos que por sua própria natureza deveriam conduzir a Deus. A “materialização”, ou o “materialismo” das Artes, num mundo que foge da crítica sã e digere todo tipo de indulgência moral, é, na expressão popular, um “prato cheio” onde inculcar veneno, como tempero.[/pullquote]

Verdade é que não faltam vozes de discernimento a respeito das questões sobre o uso de tecnologias e seus progressos ((e.g., Gustavo Corção, “As Fronteiras da Técnica”; ou documentos da Igreja, como a Encíclica Redemptoris Missio, de S. João Paulo II, que faz menção sobre a evangelização por meio de recentes recursos de informática)). E elas devem ser ouvidas, se se procura dimensionar corretamente a Arte, a Técnica e a Moral. As respostas estão nas três dimensões da Fé, da Esperança e da Caridade.

Na projeção da vida, o único recurso que dá ao Homem o verdadeiro foco, formando uma única e plena imagem, e realmente o abraça, fazendo-o participar da cena eterna, é a dimensão trinitária do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

© 2014 – José Duarte de Barros Filho para el Centro de Estudios Católicos – CEC
 
 

José Duarte de Barros Filho

José es biólogo con un posdoctorado en Zoología por la Universidad del Estado de Río de Janeiro (UERJ).
Comenzó a participar en torneos oficiales de ajedrez en 1979, siendo bicampeón del Estado de Rio de Janeiro en las categorías infantil y cadete, así como campeón petropolitano y del interior del Estado. Se desempeñó como profesor de ajedrez en escuelas de Petrópolis y promoviendo cursos particulares.
Está vinculado al Movimiento de Vida Cristiana desde 2008, donde inició un curso de Catequesis para Adultos. Tiene un posgrado de Extensión Universitaria en Enseñanza Religiosa por la Universidad Católica de Petrópolis.

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