diver_coverO filme “Divertidamente” tem o mérito de levar o grande público a lançar um olhar sobre a riquíssima vida interior do ser humano. Emoções básicas e abstratas, memórias de curto e longo prazo, pensamentos e experiências agrupados em “ilhas” -de acordo com aspectos considerados como essenciais na formação da nossa personalidade como a família, a amizade, a virtude, a diversão e os hobbies- e até o subconsciente encontra um lugar dentro do imenso e colorido mundo que o ambicioso projeto de animação gráfica nos apresenta.

Este artigo contém algumas considerações sobre o positivo do filme e também algumas críticas, assim como algumas sugestões de aprofundamento sobre o importante tema das emoções.

Muita coisa se passa na cabeça da gente

Um primeiro aspecto positivo do filme é que nos ajuda a ser mais conscientes da riqueza da nossa vida interior, principalmente das nossas emoções, que formam parte importante dessa vida. A maior parte do filme se passa “na cabeça” de Riley, uma menina que passa por uma experiência de “crise”, por ter que se mudar com a sua família de Minessota para São Francisco. Essa mudança de contexto, com todos os desafios que implica, vai suscitar no interior de Riley toda uma “revolução”, na qual as cinco emoções básicas (alegria, tristeza, raiva, nojo e medo) farão sentir com força a sua voz.

Um segundo aspecto positivo é que nos mostra as emoções sempre associadas a alguma experiência do mundo real. As emoções dão uma coloração às experiências, mais ou menos intensa, o que vai determinar a forma como tais experiências serão armazenadas na memória. Porém, cabe ressaltar que pode haver uma inadequação entre a reação emocional e a realidade que a suscita. Este é, ao meu modo de ver, um dos aspectos mais interessantes do filme: o conflito entre a alegria, emoção dominante no caso de Riley, e a tristeza, emoção que é constantemente abafada.

[pullquote]Um terceiro aspecto positivo está já implícito no primeiro, que é a importância das experiências, que vão formando a personalidade de Riley. De acordo com o peso e significado que essas experiências têm, chegam a agrupar-se em “ilhas”, que são as que dão a Riley uma estrutura interior que lhe permite interpretar e incorporar novas experiências e novos contextos, como acontece com a mudança para São Francisco. Embora as “ilhas” chegam a sofrer certo abalo, é graças a experiências passadas, aplicadas ao novo contexto, que Riley consegue sair adiante, com a ajuda dos seus pais.[/pullquote]

Agora passaremos ao segundo momento do presente artigo, que apresenta uma crítica a alguns elementos do filme.

As emoções na sala de comando

Um primeiro aspecto do filme que nos parece problemático é o fato das emoções terem o comando sobre a vida interior de Riley. Curiosamente, o próprio filme evidencia o problema que tal preponderância acarreta: não fica muito claro como se alcança o equilíbrio emocional a partir do puramente emotivo. Quem desempenha esse papel, de alguma forma, é a emoção dominante, que no caso de Riley é a alegria (a do pai, por exemplo, parece ser a raiva, enquanto a da mãe a tristeza).

Mas isso só é possível, no contexto do filme, porque as emoções estão nele “personificadas”, isto é, são “pessoas”. Somente pelo fato de ser uma “pessoa”, a alegria pode realizar um trabalho de discernimento, no sentido da descoberta de que a tristeza era realmente a emoção adequada para o contexto de Riley.

Na vida real, porém, as emoções não são “pessoas”, dotadas de razão e vontade. Na verdade, é a própria pessoa quem as possui e quem deve decidir o que fazer com essa riqueza emotiva posta a sua disposição. No caso das crianças, cuja personalidade ainda está em formação, cabe aos pais auxiliarem, como primeiros educadores, nesse progressivo tornarem-se “racionais” e “pessoais” as emoções.

Um segundo aspecto problemático, associado ao primeiro, é a ausência precisamente da razão e da vontade como personagens do filme, em diálogo íntimo com as emoções. Apenas sabemos, pelo que é apresentado no filme, que existe um trem que leva os pensamentos à torre de comando, a uma velocidade incrível. É uma figura interessante, já que a rapidez dá uma ideia do próximos que estão os pensamentos das emoções. Mas ela coloca o racional fora da torre de comando e, portanto, longe da experiência que a pessoa tem do real, desempenhando um papel não de guia, mas de auxílio ou serviço às emoções.

As consequências dessa exclusão do intelecto e da vontade da torre de comando são precisamente a ausência de um critério objetivo para a adequação das emoções à realidade. Falta o que Karol Wojtyła, na sua obra “Amor e responsabilidade” e também em “Pessoa e ato”, chamou de uma “Integração à verdade”, isto é, uma autêntica resposta a nível intelectual, volitivo e emocional aos valores e anti-valores que se fazem presentes na experiência humana.

Finalmente, outra grande ausência no filme é Deus, quiçá a “ilha” mais importante na formação da personalidade do ser humano, aquele que, como dizia Santo Agostinho, é mais íntimo a mim mesmo do que eu mesmo, que me conhecia desde antes de eu estar no ventre materno. Da nossa experiência de encontro com Deus (ou desencontro), da nossa resposta ou indiferença a Ele, dependerá a experiência que teremos da realidade da qual Ele é fundamento, a resposta que daremos aos valores que tem a sua origem e mais perfeita realização nele.

Sem uma referência a Deus, qualquer apresentação da experiência humana fica necessariamente incompleta.

Conclusões

[pullquote]Alentamos todos a assistirem o filme, esperando que as reflexões compartilhadas sirvam para aproveitar tudo o que de bom nos oferece esta criativa e ousada animação gráfica. Pensamos que ela nos ajuda a tomarmos mais consciência da importância das nossas emoções e do desafio que temos de educa-las para que nos ajudem a ter uma sadia experiência moral, de resposta pessoal adequada aos valores e anti-valores em nossa volta.[/pullquote]

No caso daqueles responsáveis pela formação de crianças e jovens, o filme também nos alerta sobre a necessidade que eles têm de pontos de referência, como são a família, a escola, as boas amizades, pessoas que os ajudem a entender-se cada vez mais a si mesmos e a ir conquistando o auto-domínio pelo caminho das virtudes morais.

Finalmente, é imprescindível a tomada de consciência de que não se pode ter uma visão completa do homem se obviarmos a sua relação com Deus, fundamental na formação da sua personalidade a um nível intelectual, volitivo e, por que não, também emocional.

© 2015 – Martín Ugarteche Fernández para el Centro de Estudios Católicos – CEC

Martín Ugarteche Fernández

Martín nació en el Perú en 1978, cursó estudios en Ingeniería Industrial entre los años 1995 y 1998. El año 1996 ingresó al Sodalicio de Vida Cristiana y desde el 2001 vive en Petrópolis, en el Estado de Río de Janeiro (Brasil), donde se graduó como licenciado en filosofía el año 2005, por la Universidad Católica de Petrópolis y luego como magíster, también en filosofía, el año 2008, por la Pontificia Universidad Católica de Río de Janeiro. Actualmente es candidato al título de doctor en filosofía por la Universidad de los Andes, en Santiago de Chile.
Desde el año 2003 desarrolla diversos proyectos de evangelización de la cultura en Brasil, tales como Histórias de Natal y Vida em Movimento. Desde el año 2007 es profesor en la Universidad Católica de Petrópolis, afiliado al Centro de Teología y Humanidades de dicha institución. Es profesor de Ética, Introducción a la Filosofía, Lógica y Teoría del Conocimiento.
Además de ser el Director Regional del CEC en Brasil, es miembro del consejo de Ética de la Universidad Católica de Petrópolis y editor asistente de la revista Synesis, del Centro de Teología y Humanidades de dicha casa de estudios.

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